domingo, setembro 18, 2005

Um triste acordar.

Acordou com o barulho do vizinho no andar de cima. A noite de ontem ainda lhe pairava nos pensamentos. Mais uma vez tinha bebido demais, fumado demais, tentado demais divertir-se, viver a vida, como se isso fosse uma obrigação, como se isso fosse a única finalidade, como se apenas lhe bastasse isso.
Ao seu lado, o corpo despido dela ainda ali estava. Ainda se lembra do copo que lhe pagou na discoteca, de meter conversa com ela, de dançar um pouco, contar umas piadas, perguntar-lhe se não queria ir para "um sítio mais calmo". Tudo aconteceu rápido, como normalmente acontece.
Agora, recorda-se como se apanhou a ele mesmo em flagrante a olhar para o decote dela, de como imaginou como seria debaixo daquelas calças justas que deixavam imaginar um fio dental. Linda, era isso que ela era. O corpo firme, as curvas suaves, os olhos doces, o cabelo aloirado e encaracolado a cair em franja fizeram com que ele a desejasse. Ainda se recorda da cara de prazer que ela fez, e de a ouvir sussurar "Nunca niguém me excitou como tu!" e pedir "Mais! Não pares!". Tudo foi perfeito... ontem! Hoje cansava-o. Dava-lhe náuseas. Impedia-o de respirar!
Sacudiu a cabeça como que a afastar qualquer pensamento e levantou-se, tentando não a acordar, apenas porque não lhe apetecia falar com ela. Apanhou os boxers do chão e dirigiu-se à varanda do quarto. Precisava sair dali.
Espreitou para baixo, deixando o olhar atravessar os 12 andares que o afastavam das ruas da cidade, onde àquela hora tudo andava na corrida do costume. Sempre lhe fez impressão como podiam as pessoas viver tão sozinhas quando partilhavam o mesmo espaço, a mesma rotina, todos os dias.
Ele sempre se sentiu assim também, toda a vida, com pequenos intervalos que acabavam rápido, deixando-o ainda mais só. Mas também, sempre se recusou a ser mais uma "formiga no carreiro". Desprezava a vida convencional, a rotina, o trabalho "das 9 às 17", as relações que se mantinham por hábito mais do que por sentimento. E era também por isso que se sentia mais só, porque pura e simplesmente havia cada vez menos lugar no mundo para pessoas como ele.
Algo se movia no meio do fumo dos carros, num vôo descompassado e incerto, vindo na sua direcção. Entre o cinzento da poluição, dos outdoors na estrada, das pessoas, e de tudo o resto, algo colorido se distinguia. Cores vivas. Verde. Vermelho. Amarelo. Laranja. Cores vivas! Vida! E era na sua direcção que vinha, trazida pelo vento, voando nele. Frágil, deixava-se arrastar para a esquerda, para a direita, mas subia sempre, para ele.
Esticou-se para agarrar aquilo que lhe parecia uma borboleta. Não das da cidade, feias. Lembrava as borboletas dos tempos em que ia visitar os avós, aquelas que se misturavam com as flores. Mas não, era apenas um bocado de um prospecto, daqueles que dão à saída do metro. Na cidade, pelo menos na cidade em que vive, não há lugar para a beleza.
O "Olá, estás bom?" fê-lo despertar para a realidade.
- Olá...
- Gostei muito da noite de ontem, e algo me diz que o dia ainda vai ser melhor!
- Sim, também adorei. E não ficou por ali. Ontem foi só o começo. Acho que muitas coisas boas vão ainda acontecer... - mentiu...

1 Comments:

Blogger k8tye said...

ja conhecia este texto...mas volto a dizer que gosto...
a forma como os pormenores são contados...como saltitamos no texto daquele dia para a noite anterior...e tal como o autor entramos nas perguntas...nas duvidas...e n temos resposta...porque é que as cosias acontecem sem sabermos como nem porque?...para que uma noite alegra se o dia se avizinha triste?..e para que a mentira?....
belo retrato das noites comuns...******

9:51 da tarde  

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